terça-feira, 9 de outubro de 2007

Uma boyzinha no ônibus

Desde os dezoito que abandonei o bom e velho busão. Como boa filhinha de papai, ao completar a maioridade, herdei o Uno da minha mãe, que, de tanto sofrer na minha mão ficou apelidado de Chacrinha - o velho guerreiro. De Chacrinha pra cá, tive outros automóveis e pegar ônibus virou uma prática em extinção.

Como vocês sabem, há dois anos que juntei meus mijados com o do Nego e na cota dos mijados foram os nossos carros que viraram uma Doblô. Ótima, maravilhosa, espaçosa e que na época das vacas magras salvou a gente porque a alugávamos e seus caraminguados renderam direitinho. Enfim, quando estávamos sem carro, táxi na cabeça. E agora que não a alugamos mais, ficamos eu e o Nego fazendo um balé de horários pra gente sair junto de casa e voltarmos também. Um dando carona ao outro. Hoje o carro é meu, hoje é teu. Enfim, cedendo daqui e cedendo de lá. Exercício diário de casório.

Até que (re) descobri o ônibus. Teve uma belo dia que eu não precisava chegar cedo no trabalho, podia voltar tranqüila da ginástica, ajeitar as plantas, curtir a nossa casinha e depois pegava um ônibus. Tinha acabado de ler a crônica de Samarone (no maravilhoso www.estuariope.blogspot.com) e me lembrei de como era pegar ônibus. Não tava afins de gastar 10 contos no táxi e resolvi gastar apenas 1,60 no busão. Liguei pra minha amiga Alice que me deu as coordenadas rumo ao Estrada dos Remédios. No primeiro dia, passei 40 minutos na parada errada, no segundo ia pegando o ônibus errado, no terceiro de tanto olhar as casinhas e pessoas, pisei no cocô e hoje foi o quarto e deu tudo certo.

O que eu gosto do ônibus é que você vê a cidade. É um momento que você pára, reflete, lê. Lembro que li demais no Engenho do Meio depois da aula no Salesiano. Oxi, eu pegava indo pra cidade que era pra ficar sentanda lendo. Chorei com Morro dos Ventos Uivantes, torci demais pra Olga Benário se safar, viajei para Macondo com todos os anos de solidão... Isso além de rir, eu morro de rir no ônibus.

Hoje mesmo a cobradora que já tava voltando pra casa paquerando com o cobrador da vez. Fazendo um trocadilho podre com o brega mais podre ainda que ecoava no sonzinho do coletivo. Sim, tem também o povo com quem você fala. Tem gente que até amigo faz no ônibus.

Confesso que ainda estou tímida. Só foram quatro viagens (a pessoa ser boyzinha é ridículo né?). Não costumo conversar muito com as pessoas não. Sempre dou só um sorrisinho, troco gentilezas, um bom dia, boa noite. É que prefiro ficar assim, meio no idílio. Sem engrenar muito uma conversa, pra depois não me decepcionar, nem me apaixonar. Nunca sento do lado. Prefiro ficar na liberdade da imaginação. Sim, liberadade é o que há de melhor em pegar ônibus.

Um comentário:

Silvia Góes disse...

liberdade é o que há de melhor em ser você, no ônibus, no chão, na vida ou na contra-mão. lembra da gloriosa Eliete, do alto da sua sabedoria, lá no José do Pinho, naquela entrevista maravilhosa para aquele programa encantador que "ainda" não foi ao ar?
"um bom dia é um gesto de carinho".
salve Eliete, salve a delicadeza, salve o morro, salve o povo, salve a simplicidade do riso!
"só conseguimos achar a beleza verdadeira nos lugares onde os seus buscadores ainda não a encontraram". (Milan Kundera) também acho que a maior beleza está na busca, ainda que os buscadores sejamos nós mesmos, nós todos...
salve a vida e a insustentável leveza do ser!
ah, minha amiga, não há um segundo de vida que não valha infinitamente mais do que tudo nesse mundo...
amo-te
silvinha