Faz um tempinho que queria escrever sobre violência e hoje recebi um texto triste e lindo de Silvinha que disse tudo. Triste pelos olhos do menino visto também em tantos outros e lindo porque ainda tem gente, como Silvinha, com uma sensibilidade sem fim. Com a devida autorização, o texto segue abaixo e espero que ele emocione a todos como a mim.
O dia em que perdi o medo da morte
(Silvia Góes)
Era uma segunda-feira, onze horas da manhã, a semana chegava ainda, porque o domingo é preguiçoso e transfere a sua responsabilidade de primeiro dia sempre para a segunda-feira. Chegava perfumada, com aquele cheiro de terra quente acalmada pelo choro rápido de algumas nuvens, nada de tempestades. Odor de felicidade para mim, lembranças de uma infância em que os “banhos de chuva”, de calcinha bunda-rica no meio da rua, numa Garanhuns ainda mais interior, de final dos anos 70 e início dos 80, eram o retrato da alegria crua, o mais fiel que até hoje consigo ver. Há saudades que são verdadeiras orações.
Andava e andava, não, carreava, não é a mesma coisa, porque de carro a gente perde muito da beleza do chão, mas as quatro rodas existem e me ajudam a acompanhar o tempo de vez em quando. Prefiro andar, mas enfim, carreio mais do que queria por mais uma necessidade inventada. Dois meninos, um menor e outro maior, se protegiam dos pingos debaixo de uma árvore. Não passei por eles sem vê-los. Ambos estavam sentados, mas algo muito forte me levou aos olhos do mais crescido, uns dez anos eu acho, e trouxe os olhos dele para mim. Encontro. Vi. Desandei. Sabia que ele viria. Ouvi a sua raiva gritando nas retinas.
Ao longo da minha vida tenho encontrado algumas crianças muito tristes, em entrevistas, trabalhos por aí. Uma vez entrevistei um menino de oito anos que já tinha matado duas pessoas, tatuado por uma estrada cheia de sofrimentos, mas era uma criança e às vezes brincava e ria, até comigo ele brincou, aquela estranha que naquele dia chegava para saber da sua história, do nada. Hoje ele deve estar com uns 20 anos. Tomara! Não sei dele, não acompanhei, não criei raízes, infelizmente. Segunda-feira senti saudades dele. Há lembranças que são verdadeiros segredos do destino, nos ensinando a ser em sua dureza.
Olhei pelo retrovisor e vi o menino chegando. Passos lentos. Pisando o chão em que eu carreava de um jeito firme, resolvido. Tentei desviar, tive medo, desnasci. Ele mostrou a arma e pediu o celular e “todo o dinheiro de papel na bolsa”. Eu não tinha nem uma coisa e nem outra. Ele me odiava de um jeito intenso, com uma proximidade que eu nunca tinha visto antes. Então eu quis morrer. Nos olhos dele eu quis morrer. Disse que não me importava. Que vê-lo ali, me vendo daquele jeito, já tinha me matado. Ele virou as costas e saiu.
Nos olhos dele havia cicatrizes de muitas dores, tantas que os meus 32 anos de mundo não me ensinaram a contar, mesmo com lacerações na carne, nos ossos e no sangue que quase me derrubaram por duas vezes. Em mim, os olhos dele não se transformaram em mais uma cicatriz entre as que carrego debaixo da pele, mas numa nova ferida aberta para sempre no corpo da vida. E como tá doendo!
Talvez ele tenha percebido que eu me importava com ele e por isso não atirou, ou talvez a arma fosse de brinquedo, afinal era só um menino. Perdi a fé na vida por uma semana. Todos os dias passava pelo mesmo lugar procurando por ele outra vez. Queria encontrá-lo de novo. Ainda não sei para fazer o que, mas sigo tentando. Vivi meus dias seguintes, ressuscitei e inventei a cura para não fechar a ferida e mesmo assim ainda beber da chuva. A minha arma não é de brinquedo, é de verdade, chama-se amor, então decidi nascer para dizer que essa arma (a palavra tem coisas mágicas escondidas - arma é anagrama de amar) é a única capaz de matar a morte. E agora é minha missão dá-la de presente ao menino. Se alguém o encontrar por aí, peço por favor que o chame para brincar e tomar banho de chuva e que me avise, para que eu possa entregá-lo o meu regalo e caminhar com ele um pouco, com os pés no chão. Isso ele não pediu no assalto, mas podemos dar.
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