
Assim, na noite que postei o ultimo texto estava em Vega, num albuergeu delicia de brasileiros. Tinha comido feijao e arroz no jantar, dormi sozinha num quarto, delicia! Ai no outro dia de manha, acordei e segui pro Cebreiro. Subir lá nao é um negocio, digamos, simples. Uma subida miserável. De baixo eu olho uma montanha lá em cima e nela tem feito uma nuvem parada e pensei que nao seria possível ser alí, será? Claro que era né? Fiquei rindo da minha própria desgraça mas pelo menos andei, literalmente, nas nuvens.
Lá no Cebreiro tem casas imitando as que os celtas moravam. Adorei, as portinhas bem pequenas. Acho, quer dizer, acho nao, tenho certeza que tenho o biotipo dos celtas, me senti em casa ahahah. Como eu ainda ia andar muito, resolvi almoçar por la. Entrei num restuarante, tocando musiquinha celta... Ai a garçonete me pede pra sentar com um senhor que também estava só. Ok, fazia umas 4 horas que nao falava com ninguém e aceitei de bom grado a proposta.

O senhor tinha lá seus 70 anos, parecia um lord ingles, mas era mexicano. Ele vinha desde Le Puy (ou seja 1600km) e assim como eu, estava bem pertinho de Santiago. Do Cebreiro pra Santiago so faltavam 150km! O almoço foi maravilhoso, Guilherme com seu humor sarcástico me fez rir muito. Parecia um avó e uma neta conversando. Ao invés de fazer um blog, ele resolveu gravar num gravadorzinho suas experiencias no caminho. Umas das coisas foi uma cançao que umas freirinhas lá da frança cantam, cançao de santiago. Aqui ninguem conhece, lindo, lindo. Ele pediu pra que eu cantasse alguma coisa e eu cantei com minha voz rouca pra ele guardar um pedacinho daquele momento pra vida toda dele. Lindo.
Aí sigo eu para o meu destino final do dia. Vou por um caminho lindo, cheio de montanhas e me sinto a propria Julie Andrews em a Noviça Rebelde! Ai chego no meu albuergue e: lotado. A mulher me oferece uma barraca de camping. Ok, mesmo pq eu nao andaria mais 100m. Quando chego na barraca, xixi e pêlo de cachorro. Ai é demais né minha senhora? Tudo bem que a pessoa resolve tirar férias pra andar feito uma condenada, fazer bolha no pe, dormir com ronco e etc, mas dormir com xixi de cachorro já é demais! O pior é que quando vc quer brigar, so sai em portugues! Enfim, deixo a doida pra la e pego uma caronete pra outra cidade.
Chegando lá, uma túia de brasileiros! Oba! Ai, como de praxe, vou abrir a internet e bomba. Sabe aquela mulher, a Marcia, que eu disse que era parte da minha família aqui? Pois bem, neste dia recebo um email do outro brasileiro (aoutra metade da familia), dizendo que ela dormiu e nao acordou. Morreu. Nao pude crer. Como uma pessoa que tava tao feliz, tao livre, uma criatura que tem 2 filhos pre-adolescentes pra criar, uma criatura que tava cheia de planos dorme e nao acorda? Na hora nao conseguia nem chorar. Eu passei muito tempo com ela aqui e aqui tudo é muito intenso, ficamos muito amigas...
Vou me tremendo pro quarto e conto pros brasileiros que tratam logo de me encher de alegria. Um bom vinho, um bom queijo e um bom papo e a noite chega (sim pq ela so chega aqui às 22h30). Quando vou dormir, rezo e choro por Marcia, pelos seus familiares, pela seus filhotes que sao lindos... Enfim, fazer o q? Uma tristeza sem fim...
Mas como diria Chico e Toquinho, a vida é pra valer, é pra levar. Entao no outro dia, levanto e sigo com os brasileiros. Eles foram uns anjinhos pq me encheram de força e alegria pra continuar essa caminhada. Ja estávamos chegando perto dos ultimos 100km! Andei com eles quase 25km e cheguei num albuergue fofo. NO meio do nada, nao tinha nada a nao ser vacas, vacas e vacas. E coco de vaca, claro.

A galera resolve fazer ainda mais 18km. Eu nao ia aguentar, mais de 40km por dia pra mim era muito. Com muita pena e um medinho danado, fico lá, sozinha. O coraçao apertadinho, apertadinho. Entro na pousada da Carmen e me sinto na casa da minha avó. É uam casa de 1700 com fotos nas paredes, cheirinho de limpeza, uma delicia. A minha cama ficava abaixo da janela que tinha uma cortininha branca bordada e uma florzinha rosa na sacada, o cenário esquentou um pouco o coracaozinho. Sim porque naquela hora quase mando tudo às favas. Tava muito triste e o que eu queria mesmo era pegar uma aviao direto pros braços, pro abraço do meu Nego e chorar pela Marcia.

Tomo banho e fico um pouco na cama com aquele cheirinho de coco de vaca que tem nas fazendinhas... Resolvo descer para o comedor e aí Pedro, o marido de Carmem (a dona), me presenteia com seu sorriso banguelo. Aí um parênteses. Pedro tem um bom padrao de vida, sua camisa, por exemplo, era Lacoste, mas a saúde bucal na Espanha é um negócio, no minimo, estranho. Ele nao é o primeiro banguelo que eu vejo...
Enfim, Pedro, sua banguelice e simpatia ajudam a aquecer meu coracao. Ele me dá um livro de uma brasileira que fez o caminho há algum tempo e passou 15 dias ali com Carmem e os seus. Vivendo aquela vida da fazenda, cortando batata, lavando e plantando. Vivendo naquele lugar que o tempo parece que parou. O fim do livro era muito triste, enfim, toque a chorar em pleno comedor. Ai Pedro me poe uma taça de vinho da Rioja e me faz sentar numa mesa com 3 espanholas aqui da galicia. Conversamos muito. 3 Gallegas loucas. Somos as ultimas a comer, depois de 3 garrafas de vinho!
Fiquei com vontade de passar uns 2 dias ali, vivendo aquilo. Mas aquilo nao é a minha vida. Como diria o Nego: volta logo pra casa, pro nosso caminho e pros que virao! Isso ele só disse hoje, mas foi exatamente assim que eu me senti naquele dia. No outro dia acordei uns 20kg mais leve e saí cedinho pra começar a contagem regressiva até em Santiago.
Cheguei no marco que dizia que so faltavam 100km! Que alegria. Olhei pra pedra, bati nela assim como quem diz que é mais forte, sabe? Aí um cara, de nao sei de onde faz a mesma coisa, olha pra mim abre um sorriso e me dá um abraço! Enfim, estamos perto e somos fortes! Sigo e ele fica la, olhando para a pedra...
Agora a cada 500 m tem essa contagem regressiva. Muito bom! Dá força pra andar mais. POis bem, ontem eu tinha programado andar 32km mas quando chego no 26, meu joelho esquerdo começa a fisgar. Muito. A cada 10 passos, uma fisgada danada. Ai, nao. Me senti Rubinho Barrichello!!! Nao, de jeito nenhum. Resolvi parar para me poupar.
Ai parei num albuergue, novamente no meio do nada! No meio do nada quer dizer uma igrejinha romanica, umas 5 casas de pedra, um albuergue, uma maquina de coca-cola e muitas vacas! Chego e faço como tada vez: tomo banho, organizo minhas coisas, dou um cochilo e ai vou beliscar alguma coisa pra dormir. Quando estou no bar fazendo essa ultima coisa antes de dormir, chegam as 3 gallegas. Era 19h30 da noite e elas ainda iam para uma cidade a 6km dali. Ligaram para a pousada e ainda tinha uma vaga. Era a minha. Prontamente arrumo todas as minhas coisas. O povo no quarto do albuergue nao entende nada. A louca vai sair 20h da noite?
Exatamente. Feliz da vida andamos das 20h30 às 22h. Quando chegamos no albuergue, começa um toró inacreditável! Novamente a minha cama fica embaixo de uma janela. Ao invés da flor, durmo com a luz do relâmpago e com a forte percussao dos trovoes, da leveza dos pingos, do cheirinho de coco de vaca e com uns roncos, é claro. Hoje andei 27km e só faltam 50km! Que alegria. A galicia é linda e estou feliz. Amanha quando começar a contagem regressiva de 50km pra baixo, vou começar a ficar verdinha (risos), pq to me achando a própria Incrivel Huck. Espero chegar na catedral antes da missa do botafumeiro, que é domingo às 12h! Vamos ver se da tudo certo né? Porque aqui, ninguem sabe.

As gallegas disseram que pisar em merda de vaca dá sorte. Entao estou com 100km de sorte aí na vida hein! E sabe o que mais? Aqui na galicia tem uma musica popular da Carolina. Parece um côco! Diz que na saia da Carolina tem uma lagarta e quando ela dança a lagarta se balança... Eu mostrei minha tatuagem, que também dança! Pois que dancemos, a Carolina e sua lagarta, pelos caminhos da Galícia, de Santiago, das estrelas e da vida!
5 comentários:
Faz o caminho de volta, meu amor! Já tô nas últimas de saudade, visse?
Beijos quilométricos
Nego Nu
Que pena sobre a Márcia.
Mas, como disse o Vinícius, coisas da vida, fatos da vida que a gente toma conhecimento e leva como lembranças boas.
O negócio é caminhar, cumadre. E tome chão !!!
Falta pouco agora.
Bota pra danar.
E boa sorte nesses últimos momentos.
Cumpadre, cumadre, Clarinha e Bia.
Estamos todos nessa contagem regressiva, com você.
Tô louquinha pra fazer um almoço bem gostoso pra você matar a saudade da comida e a gente começar a ouvir você: "mainha... você não tem idéia não, não tem noção!!!"... graças a Deus tá chegando.
Um beijo bem grande.
Que lugares lindos.
Fé em Deus e pé na tabua.
Falta pouco para voce conhecer uma belíssima catedral.
beijo
Denise
Eita que já tás chegando danada!!!
Beijão nosso.
Nina, Felipe e Chico
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