
Quando eu tava me lascando hoje no sol, já meio sem folego, rezando para depois da subida ter uma descida e bem pertinho dela ter uma cidade, fiquei pensando qual a graça desse negocio aqui.
Porque a pessoa dorme mal com os roncos, acorda com as pessoas falando alto as 5h da matina, toma um desayuno fuleiro que vc comprou no mercado no dia anterior, vc coloca seus pes que doem bastante detro de uma bota e sai pra andar. Ai vc leva sol e chuva, sobe e desce, carrega a mochila, fala com uma pessoa aqui e acolá, toma água da fonte com gosto de pedra. Depois de uns 25 a 30km chega no destino do dia e ve que ainda tem umas centenas de km pra chegar...

Entao vc vai para o albuergue rezando pra que tenha lugar pra vc dormir naquele quarto com o povo roncando. O bom é que geralemnte tem e vc tem que pagar, claro, mas é baratinho... Vc toma banho num banheiro cheio de gente e lava sua roupa e torce demais pra que ela fique seca. Ai vc sai pra comrpar o que comer e beber e é super mal atendido. Vc vai na internet e num instante acaba. Ai vc come, toma um vinho (geralmente maravilhoso) e ai vc vai dormir pra comecar tudo novamente.

Quem le assim pensa porque danado as pessoas pagam passagem de varios lugares do mundo e gastam grana e sofrem e dizem que foi maravilhoso...
Bem, eu to quase na metade (do que eu vou fazer, vou ter que pular uns 100km) e tenho algumas teorias (risos). Primeiro todo mundo aqui é igual. Se tem um, um pouco diferente, mais abastado (digamos), esse paga hotel e pega taxi e vc nem vê. Todo mundo que fica nos albuergues tem os mesmos problemas e prazeres. Todo mundo dorme igual, come pao dormido colocado debaixo do braçp, todo mundo lava sua roupa e torce pra ela secar. Quase todo mundo carrega a mochila nas costas (há quem pague 7 euros pra deixar no proximo destino), todo mundo tem dores e bolhas. Uns mais, outros menos. E todo dia, todo mundo faz a mesma coisa: anda. Uns mais, outros menos, mas anda. Eu acho que isso dá uma paz, sei lá , uma tranquilidade, sabe? Voce nao precisa fazer nada pra ser melhor ou pior, vc nao precisa provar nada pra ninguem, vc é igual, a unica coisa que muda é a lingua.
Depois tem a questao da natureza. Eu misturo a natureza com o divino. Sao flores lindaaassss, diversos tons de verdes, o cantarolar alegre dos passarinhos e até o cantar do Cuco (sim, aquele do relogio) que anuncia a chegada do sol. Tem as borboletas e seus traçados no ar, a água dos riachos, a força das pedras no chao, as plantacoes de trigo dançando ao vento. É muita natureza e é lindo. Tem as partes bem bucólicas com os carneirinhos (aqueles que contamos pra dormir)a travessando os pastos. Ai vc ver toda essa beleza dá uma energia danada. Voce se sente parte daquilo, sabe?
Mesmo nao sendo, nao nascendo ali, vindo do outro cantinho do mundo, mas vc faz parte de tudo aquilo, do todo. Voce ouve a natureza e se ouve tambem e descobre tantas coisas.

Ai tem também o desapego às coisas materiais que se exerce o tempo todo aqui. Na verdade vc fica dando mais valor a tudo. O que vc ja tem e se pergunta se vc precisa ter mais do que aquilo. Pq eu fico achando que a gente fica so se preocupando demais com ter, ter, ter. As x sem muita necessidade, sabe? Pq, por exemplo, tudo que eu preciso aqui eu to carregando nas costas. No Recife, claro é diferente, mas com certeza nao se precisa de tanto...
É como se vc visse que ralando, penando, como e quanto a gente é feliz. A gente fica com a nocao do que ja faz a gente feliz e sao coisas tao simples...
Um comentário:
A Natureza, o despreendimento, a harmonia de um com todos e com o Todo ... paz, amor, o essencial da vida. É Carol, esse deve ser mesmo o sentido do Caminho, pois com certeza é o da vida.
Agora um trechinho de ônibus tá valendo, não tá não? Tu vai refletindo no caminho, mas sentadinha de perna pra cima, descansando os pés. Mais pra frente tu pega de novo, pra curtir o caminho e a beleza com sua alegria, que é tudo de bom. Te amo.
Beijo.
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