Eu tenho parte com casa. Sou feito gato, gosto de canto. Acho que casa é o lugar da gente no mundo. Admiro quem pode ficar em qualquer lugar e fazer dele sua casa. Um gigante na arte das (des)amarras. Eu sou enraizada até o último fio de cabelo.
Tenho na memória, vivinho como se fosse ontem, o cheiro da casa de Campo Grande de Vovó Lili. Nítido, nítido e forte. Acho que porque foi lá que entendi o que era família. Antes morávamos fora do país e toda a família era aquele núcleo central que é a família de todo dia.
Na casa de Vovó não, tinha prima, primo, tias e seus companheiros. Tinha árvores e frutas que se podia pisar e sujar o pé descalço. Tinha pé de carambola com seu gostinho azedo e a melequinha no meio. Tinha banco de concreto feito de praça e tinha a pintasilga que cantava de galo e tomava banho todo dia fazendo o maior barulho e sujeira.
Tinha as aulas de crochê com Vovó e tinha a galinha guisada de Nete. Sim, tinha queijo coalho – do que derretia. Tinha férias inteiras lá e passeios de mãos dadas com a minha velha até o mercado da Encruzilhada. Lembro demais daquela pele fina de dedo grosso segurando na minha mão branca e gordinha. Guiando pelas ruas da cidade, pelos caminhos.
Depois de uns anos venderam a casa de Vovó. Fui das netas que esbrevejou, que assim não pode, não deveria ser. Mas minha súplica de criança foi silenciada pela razão dos adultos que venderam a casa e compraram um apartamento pra minha velha. Com menos de um ano, Dona Lili levou uma queda. Daí pra frente, foi ladeira abaixo.
Sem seu cantinho, aquele de sempre, minha voinha não tinha mais a graça da pintasilga. Não cantava no seu terreiro e sua alegria e juízo foi esmaecendo como areia no vento. Ainda bem que a gente tem cabeça pra dizer pro vento que tem coisa que ele pode levar, tem coisa que não.
O lugar da casa está lá, mas ela sofreu um incêndio e depois foi toda reformada. Não dá nem pra reconhecer. É que casa, diferente de gente, depois de reformada, é uma casa nova pra se conhecer.
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