
Para surpresa geral do grupo, voltei. No meu juízo estava certo: vou andar o que aguentar. Aguentei justos 20km. Cometi o erro de colocar um compeed (tipo uma segunda pele que protege o calo) em um calo já costurado e o que era só um calo virou um calo de sangue. Enfim, aquilo tava me doendo que só. Aí peguei uma Toyota (melhor meio do transporte do Agreste) e fui bater no próximo ponto de encontro. Mesmo sem caminhar, Sr Aldo, o motorista, estava achando aquela caminhada o máximo. Fazia alguns dias que via a gente andando e disse logo que ele mesmo não conseguia andar nem 5km.

- Consegue sim Seu Aldo. A gente nem pensa, mas consegue.
- Oxi, tem jeito não, dá logo um suador.
Conversa vai, conversa vem, logo fico sabendo que Seu Aldo tem aquela Toyota, mas tem também caminhão, telelei, telelei
- Pronto dona é aqui.
- Obrigada Seu Aldo, quanto foi?
- Oxi Dona, posso cobrar não. Vocês tem coragem de mamar em onça, faz até medo cobrar.
- Oh Seu Algo, obrigada, obrigada mesmo.
Desci na barraca de Seu Zé. Expliquei o de sempre:
- Não, não é promessa. É uma caminhada. Saímos de Jaboatão e vamos até Taquaritinga do Norte. É. Isso. Vamos. Posso sentar aqui um pouquinho? Deitar nesse banco? Obrigada.

A barraca do Seu Zé é essa aí da foto. Tudo que tem são as bolachas, uns utensílios domésticos, cerveja, pinga e a água preta do capitalismo. E só tem normal, zero não tem não. E está quente, gelada acabou. Seu Zé, gosta muito de falar não. Ótimo, eu tava com muita dor, tirei o compeed e aí o pé sangrou. Tava p da vida, também não tava pra muita trela não. Será que agora vou ter que parar mesmo?
Fico lá na barraca esperando as meninas e depois de um tempo chega uma família que vai pra São Paulo. Beijos, abraços, desejos de boa sorte e lá vão eles de Toyota. Depois chega outro Zé.
- Quanto é?
- 47 reais
- Óia aqui. Bota outra.
Pronto. Foi só isso que eles disseram. O outro Zé pagou a Zé, o dono da barraca, o pindura, tomou outra bebida e ficou lá 30 minutos. Silêncio. Poderoso silêncio. As meninas chegaram esfoladas e o outro Zé para o Zé dono da barraca:
- Me empresta 5 reais.
Agora para Lenira:
- Toma moça.
- Não Sr, a gente não precisa não
-Mas tome, vocês vão precisar, tome.
- Sr, pode ficar, muito obrigada, muito obrigada mesmo.
Que cena! Ele dando o que não tinha pra gente. Que bom que ele ficou com os cinco contos, que pra ele ia fazer falta porque o que ele deu encheu a gente de esperança. O que ele deu, não se compra e nem se vende.
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